Gloria Groove, sem sombras de dúvidas, tem sido um dos principais nomes da cena musical LGBTQ+ brasileira. Dona do seu próprio império, gloriosa e sempre pronta mostrar seu poder, ao lado de nomes como Pabllo Vittar, Lia Clark e Aretuza Lovi, a drag queen vem se destacando cada vez mais depois do “boom” de outras queens aqui no Brasil.

A queen que, ganhou destaque devido a sua voz potente e por fugir um pouco do tradicional funk, estilo preferido das drag queens cantoras nacionais, seguindo mais para um Rap, Hip-Hop, começou muito cedo na música e provavelmente que você deva se lembrar do rostinho de Daniel Garcia Felicione Napoleão, natural de São Paulo, nas telinhas há alguns anos.

Hoje, com 23 anos, a queen que vem de uma família com músicos, iniciou sua carreira musical há mais de 15 anos. Em 2002, teve sua primeira aparição na TV quando participou da nova formação do Balão Mágico. Já em 2006, Daniel participou quadro de calouros “Jovens Talentos”, no Programa Raul Gil, e não pense que pela pouca idade ele se intimidou e parou por aí. Em seguida, no mesmo ano, passou a integrar o elenco telenovela “Bicho do Mato”, transmitida na época TV Record.

Daniel Garcia, de boné azul, quando foi integrante da Galera do Balão, nova formação do Balão Mágico

Dez anos se passaram, e depois de se dedicar na dublagem, eis que ganhou notoriedade nacional. Em 2015, passou a se identificar com a cultura drag queen ao assistir as temporadas de “RuPaul’s Drag Race”. Desde então, decidiu que queria fazer dessa arte seu trabalho e passou a adotar o nome de Gloria Groove.

No ano seguinte, em 2016, decidiu iniciar sua carreira na música e chamou atenção com o lançamento da música “Dona”, que em menos de três meses de lançamento, atingiu números altos de visualizações no Youtube. Esse foi o start que a queen precisava para começar a se empenhar ainda mais neste trabalho.

Com a repercussão, embarcou na turnê “Dona Tour”, que passou por vários estados do Brasil. Chegou a abrir os shows de drag queens de renome internacional, tais como Sharon Needles e Adore Delano.

Seu primeiro álbum “O Proceder” foi lançado em 2017 e veio acompanhado das seguintes faixas: “Império”, “O Proceder”, “Muleke Brasileiro – que teve seu clipe lançado no final do ano passado – “Problema”, “Gay”, “Gloriosa”, “Madrugada” e “Dona”.

Neste ano, como aposta para o Carnaval, Gloria Groove lançou o hit “Bumbum de Ouro”, uma das músicas mais tocadas da data, e em pouco mais de um mês de lançamento, já atingiu a marca de quase 8 milhões de acessos no Youtube.

O hit “Bumbum de Ouro” é daqueles chicletes que você escuta uma vez e não consegue mais parar de ouvir

Mas, depois de emplacar diversos hits, fazer história com seu trabalho e se tornar uma das queens favoritas dos brasileiros, o que esperar agora de Gloria Groove ? Isso e muito mais você confere agora nesse bate-papo descontraído que tive com ela:

1 – Como a música surgiu em sua vida? E como decidiu seguir na carreira musical como Gloria Groove?

A música está na minha vida desde sempre, desde que eu me conheço. Eu venho de uma família de músicos, minha mãe é cantora, meu avô era pianista na noite de São Paulo, e eu decidi seguir minha carreira musical como Gloria Groove depois de mais de 10 anos trabalhando com música. Eu não tinha um projeto meu solo, e essa ideia só surgiu depois que descobri a arte drag, e que a mesma falasse sobre a minha história e que retratasse um pouco do que nós somos.

2 – A partir de qual momento decidiu ser compositora?

Eu sempre rabisquei alguma coisa como compositor. Mas o instinto de compositor, forte mesmo, veio após eu me conhecer enquanto drag, depois que eu olhei no espelho como Gloria Groove. Isso abriu uma caixinha na minha mente que faltava ainda, e eu comecei a ter mais liberdade comigo mesmo para colocar as palavras para fora.

3 – De onde tira inspiração para compor suas músicas?

Por mais clichê que possa ser, a inspiração para compor vem de todos os cantos. Desde uma simples palavra que você escreveu até uma melodia que você cantou sem querer no banho. Neste momento, eu tenho tirado inspiração dos sentimentos. Transpor sentimentos de palavra tem sido a minha missão da vida.

Na música “Joga a Bunda”, de Aretuza Lovi, a queen faz uma participação no single que ainda conta com a voz de Pabllo Vittar

4 – Já escreveu letras para outros artistas?

Sim, já escrevi músicas para outros artistas. Aliás, tem duas faixas minhas que estão para sair no novo álbum da Aretuza Lovi: ‘Arrependida’, que ela gravou com a Solange Almeida e ‘Amor Mutante’, que a gente também fez para este projeto. Recentemente escrevi uma letra para uma amiga minha drag, a Sabrina Sister. Eu ainda quero compor muita coisa, adoro explorar essa veia de compositor, ainda mais explorando outras carinhas que não sejam a minha.

5 – “Bumbum de Ouro” esteve na lista de hits do verão. Onde buscou inspiração para compor a música? E o clipe, qual referência buscou trazer?

Eu queria que fosse aquela música para ouvir no meio da rua com milhares de pessoas, a ideia nasceu pra ser isso. Eu estava buscando algo que conversasse com esse conceito, que lembrasse a preciosidade, mas que falasse mais da riqueza de espírito e de swing do que a riqueza material. Que fizesse a gente se sentir muito valioso, e ao mesmo tempo, nos desse vontade de mexer a bunda e celebrar nossa vida.

6 – O que seus fãs podem esperar para este ano?

Esse ano tem álbum novo com certeza ainda no primeiro semestre. Tenho trabalhado em videoclipes, e quero trabalhar mais parcerias. Ah, também quero me conectar mais e melhor ainda com o meu público.

7 – Você tem vídeos cantando em inglês. Pretende um dia gravar um EP cantando em inglês? Já pensou em parcerias internacionais?

Com certeza. Eu acho que a carreira internacional é algo que se dá por si só. Somente por viver em uma era de comunicação e redes sociais, a carreira internacional é algo que já acontece. Tudo é para o mundo todo, e um dia eu vou sim fazer algo em outro idioma. É algo que eu anseio muito e não vejo a hora.

Em 2016, Gloria Groove participou do programa “Amor & Sexo”, comandado por Fernanda Lima na Rede Globo

8 – Você tem noção do impacto que sua música causa em grupos tidos como minorias?

Eu tento não ter uma noção completa para que isso não me intimide, porque a responsabilidade é tão grande de falar da vida das pessoas, da vida da minha comunidade. Eu só posso dizer que eu tenho muito orgulho de poder falar por tantas pessoas e de ser uma figura, na qual, elas se espelham, esperam uma força, sabe? É muito gratificante pra mim estar realizando este trabalho e poder contar com a força dos meus semelhantes.

9- Onde pretende chegar com o seu trabalho?

Eu costumo dizer que quero que o meu trabalho seja lendário. Que seja algo lembrado daqui muitos anos, como um marco na história. E não acho que será uma coisa efêmera, que passará com o passar dos anos. Muito pelo contrário, eu acredito que teremos chances de construir muito mais, atravessando gerações, mostrando qual era a nossa ideia nesta época. Minha intenção é que ele fique na história.

10 – Por adentrar no universo do rap, você sofreu algum tipo de preconceito da própria comunidade LGBT ou de outras drags?

Sempre vai haver um estranhamento da comunidade LGBT quando você tenta trazer, dentro dessa bolha, algo que é considerado coisa de homem, e vice-versa. Mas graças a Deus, nesta época, quando eu comecei a fazer esse trabalho, já existiam outras pessoas que faziam este trabalho, tanto nacionais quanto internacionais, e isso me deu uma segurança maior para que eu pudesse jogar o hip-hop e o rap para dentro do meu público que são os gays.

11 – O que alguém precisa ter para ser chamado de “BumBum de Ouro”, “Gloriosa” e “Dona”?

Eu acho que para ser cada um desses conceitos, ou uma combinação de todos deles, não pode faltar nessa pessoa muita coragem, autenticidade, certeza de si e muita garra para sentir todos os dias esse poder, sabendo que precisaremos buscar dentro de nós a força para fazer tudo isso por diversas vezes.

Play no clipe de “Bumbum de Ouro”, último lançamento de Gloria Groove:

Fotos: Reproduções