A casa noturna de maior sucesso de Brasília, a Victoria Haus, que já apresentou grandes nomes como Pabllo Vittar, Iza, Preta Gil, entre outros, divulgou na última quarta-feira, 2, que toda vaga que surgir no local será voltada para pessoas LGBT’s.

A informação foi compartilhada horas depois que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, assinou a Medida Provisória de nº 870/19 que retirou a população LGBT da lista de políticas e diretrizes destinadas à promoção dos Direitos Humanos. Com essa mudança, as pessoas LGBT, que antes eram citadas nas estruturas da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, foram excluídas.

Na publicação, a casa noturna afirmou que todas as últimas vagas que surgiram foram preenchidas por membros da comunidade LGBT (homens trans, mulheres trans, lésbicas, bissexuais e gays). Ainda segundo o post, o novo critério de contratação não teria sido divulgado “pra não ser interpretado como uma ação de marketing pra sair bem na foto”. Confira:

 

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NÓS EXISTIMOS SIM! Mesmo sendo agora oficialmente excluídos pelo novo governo numa medida provisória que retira os LGBTs das diretrizes de Direitos Humanos. EXISTIMOS, RESISTIMOS E NOS AJUDAREMOS mais do que nunca, combinado? Não pretendíamos trazer uma informação a público, mas recentemente baixamos NOSSA PRÓPRIA MEDIDA: TODA NOVA VAGA DE TRABALHO que surgiu nos últimos meses está sendo preenchida SOMENTE POR LGBTs na VICTORIA HAUS. Em nossos bares, caixas e até seguranças (além do enorme elenco): estamos nos esforçando para contratar somente LGBTs à medida em que os antigos postos vão sendo liberados. Temos novos integrantes homens trans, mulheres trans, lésbicas, bis e gays. Esse novo critério que adotamos não seria divulgado pra não ser interpretado como uma ação de marketing pra sair bem na foto. Hoje decidimos anunciar para dizer que está funcionando e dando muito certo. Neste momento temos uns aos outros. Faça sua parte. Seja criativo e combativo não apenas em conversas ou posts de indignação nas redes sociais. Parta pra ação!!! 🏳️‍🌈

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Segundo Thales Sabino, sócio proprietário da Victoria Hausa, a ideia surgiu durante as eleições quando muitos clientes os procuravam indagando sobre o que a partir daquele momento iria acontecer. “Não tínhamos resposta, mas decidimos naquele momento pedir indicação de pessoas a conhecidos da militância, e assim foi um falando de um para o outro”. Ele ressalta ainda a importância de prosseguir com a proposta de contratar somente pessoas LGBT’s da forma mais discreta possível para não soar como uma ação de marketing. “O importante era fazer algo, de forma discreta, para não soar oportunismo e também para testar o projeto em off.”

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Thales Sabino, sócio-proprietário da Victoria Haus

“Fizemos substituições semanalmente desde então. Não tivemos que dispensar nenhum heterossexual, mas como o giro de prestadores de serviço na noite é grande, sempre surgem vagas para freelancers. Foi aí que chamamos os chefes das equipes e explicamos que as seleções seriam somente com LGBTs. Sempre tivemos lésbicas e gays no time, mas as pessoas trans se limitavam até então às mulheres transexuais artistas de shows. Já incluímos homens trans na equipe de bar, mulheres trans no caixa, e também na segurança. Todas e todos muito focados e profissionais. Ontem, resolvemos trazer isso a público para mostrar que é preciso incentivar a união e cooperação da comunidade LGBT”, conclui o empresário.

Nicolas Magalhães, 26, faz parte do quadro de funcionários de Victoria Haus e conseguiu a oportunidade por meio deste novo critério de seleção que a boate começou a realizar nos últimos meses. Homens trans, ele afirma que sentiu muita dificuldade em encontrar um emprego que respeitasse e aceitasse quem ele é. “Eu tive dificuldade em vagas de trabalho, quando não tinha nome e gênero retificado. Passei o ano de 2017 todo sem carteira assinada. Em 2018 trabalhava em uma empresa que me aceitou mesmo sem a troca do gênero (tinha apenas o nome retificado), tive que explicar que era uma pessoa trans. Foi muito bom finalmente ter carteira assinada como eu mesmo, porém a equipe era bem transfóbica, e virei motivo de piadas, e a empresa não via nada de grave nisso, pedi conta. Voltei ao desemprego”.

Após o episódio de transfobia que sofreu, ele decidiu seguir em frente e continuar lutando pelos seus direitos e a procura de um emprego. Eis que conheceu as oportunidades de trabalho da Vic por intermédio de um amigo. “Já conhecia a casa como cliente, embora frequentei poucas vezes. Mas um amigo meu que também era trans, me indicou a vaga de bartender, isso em agosto, e desde então estou na casa, o que fez sobrar tempo para outras atividades também”, afirma Nicolas.

Sobre o ambiente de trabalho, ele afirma que uma das melhores coisas que pode acontecer é você não precisar ter um template de outra pessoa, podendo ser apenas quem você é. “É um ambiente tranquilo, não tenho que fingir ser algo que não sou para ter um emprego. Óbvio que no início mesmo sendo do meio, surgiram dúvidas e perguntas, afinal não se falava muito em homem trans. Mas não tenho problemas nenhum, sou bem respeitado como o homem que sou, inclusive executo as mesmas funções que homens cis, sem aquela separação desnecessária que já ocorreu em outros ambientes de trabalho.

Outra novidade na vida de Nicolas, foi a oportunidade de aprender uma nova profissão: DJ. A partir desta sexta-feira, 4, ele começa a aprender na prática com outro residente da Vic, que segundo ele, foi bem receptivo. “A idéia surgiu da própria casa, nunca imaginei uma oportunidade assim. Sonhava em um dia aparecer no palco da casa, ter visibilidade, porém não esperava que me teria oportunidade de DJ. Já toquei em festas pequenas, tenho até alguns DJ’s na família. Estou muito feliz e ansioso por esse projeto”.

Inclusão

Outro programa de iniciativa de empregabilidade trans, acontece em São Paulo, na Eclair Moi, de Edward Davies. Segundo ele, a ideia de iniciar o projeto começou em 2017, quando conheceu um projeto da Prefeitura de São Paulo que tem como objetivo empregar pessoas trans “A Eclair Moi sempre zelou pelo inclusão e diversidade social do grupo LGBT dês da sua inauguração. Depois que conheci o transcidadania iniciamos o programa de contratação no público trans.

“Toda canditada trans é tratado exatamente como todos os colaboradores da Eclair Moi. As mesmas devem atender os requerimentos que cada vaga exige. Na época, avaliamos mais de 25 candidatadas para cada uma das vagas disponíveis na época. A preferência é dada para pessoas trans. Caso a vaga não seja preenchida a vaga segue para outro grupo LGBT.

Segundo Edward, o objetivo do projeto é promover um ambiente de trabalho onde a pessoa trans é tratada com igualdade, e além disso, mostrar para outras empresas que é possível a contratação das mesmas. “A inclusão social é extremamente necessária, e empresários não devem ter medo em dar o primeiro passo é oportunidade para o público trans e LGBT. Empresários devem entrar em contato com organizações como transcidadania para obter mão esclarecimento e viabilizar a contratação dessas pessoas”, conclui.

Foto: Reprodução